Se diz pardo quem não se vê como negro e isso é medo de ser ligado à escravidão


É preciso entender que negros não têm ascendência de escravos, mas dos africanos trazidos para serem escravizados

Diante de tantas frases recorrentes no dia a dia, como: "é tudo mi mi mi!", "negro é racista com ele mesmo", "negro só sabe se vitimizar", "cota é coisa de vagabundo", "não existe racismo no Brasil", que vemos na boca das pessoas e também em comentários nas redes sociais, o Lado B resolveu trazer mais um tema ainda para a pauta, ouvindo o que especialistas têm a dizer. 


Eu, Danielle, jornalista negra sempre soube da minha negritude. A diferença é que eu só reconhecia meu tom de pele e não o significado daquela melanina. O peso da cor sempre me incomodou na infância, principalmente, porque na escola só aprendíamos que os negros tinham sido escravos. E ninguém quer estar no "grupo" julgado como inferior pela sociedade.

A partir do momento que eu busquei conhecimento e entendi que minha ascendência não vinha de escravos, mas de africanos que sempre foram LIVRES, tudo mudou. Minha missão, agora, é levar história e dar minha contribuição - mesmo que pequena -, a todos os irmãos de cor que queiram se reconhecer.

Quem tenta explicar o mínimo às pessoas sabe como as reações são frustantes. Porém, o mais preocupante é se deparar com uma pessoa que teme ser considerada negra. O fato é que falta de conhecimento ou não, isso é reflexo de uma herança escravista que nunca foi abolida e, se você quiser entender, é só continuar por aqui. 

O Brasil é o maior país negro fora da África, já que dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelam que 54% da população é negra. No entanto, deste total, apenas 9% se declaram como negros, outros 45% se dizem pardos (aquele que não se considera negro e nem branco).

Como esse medo está ligado à escravidão? - É, simples, é história. Ninguém quer ser julgado como inferior ou comparado a algo ruim. Por mais de 300 anos, a imagem do povo preto sempre foi ligada - de forma proposital - a coisas ruins.

Essa terrível ideia enraizada por senhores escravistas marcou tão profundamente a história dos negros, que nem a abolição da escravatura foi capaz de exterminar essa "marca". Um dos motivos foi a falta de políticas públicas para reinserir o povo preto de forma digna na sociedade.


Primeira coisa, ninguém é ascendente de escravo! - Desde a sanção da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, o negro livre ou nascido livre continuou a ser visto como um ex-escravo ou ascendente de escravo. A verdade é que ninguém tem origem da escravidão. Dizer isso é fingir cegueira à evidência, óbvia, de que os negros retirados à força de seus lares eram, originalmente, livres na África. 

Reforçar a frase: "Maria é ascendente de escravos" é estigmatizar, ou seja, marcar uma pessoa de forma negativa, reduzi-la à nada, apagar sua real origem e com a origem "apagada" com humilhação e miséria, mais uma vez, a única história que se tem sobre afrodescentes foi escrita do navio negreiro para cá.

Por que é tão difícil assumir a própria origem? - Para Bartolina Ramalho Catanante, que é pós-doutora em Educação, atualmente, professora sênior da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu - mestre Profissional em Educação e presidente do Grupo TEZ (Trabalhos, Estudo Zumbi), o receio de se declarar vem do peso de reconhecer toda a mazela a que os negros foram expostos ao longo dos anos no Brasil.

“Quando você se diz negro, significa que você reconhece sua origem e para reconhecer essa origem tem de conhecer o lado da estigmação, já que o negro sempre foi visto e retratado na nossa sociedade como uma coisa que não é boa, como uma pessoa que não é boa. Toda vez que você diz “eu sou negra” significa se redescobrir. Você tem que jogar por terra todas essas definições impostas pela sociedade e ressignificar tudo que foi aprendido desde a infância”, explica Bartolina.

Bartolina pontua que desde criança se aprende que o negro aceitou ser escravo, que apanhava, roubava, não tinha dignidade, não tinha opinião. Então, quando o negro se reconhece, ele precisa ter ressignificado todas essas coisas ruins.


“Dizer que uma pessoa foi escrava, parece que ela aceitou aquela condição. E o que aconteceu foi totalmente diferente. Esses africanos foram escravizados. Sempre existiu uma identidade, uma luta para tentar sair do quadro de escravidão, ou seja, as pessoas negras não deixaram de existir naquele período, pelo contrário lutaram pela liberdade. Isso é importante dizer. Quando você decide se dizer negro você precisa ter ressignificado todas essas coisas, porque se você não entendeu que essa negritude prevaleceu, apesar do sistema de escravidão, você não terá autoestima suficiente. Você vai achar que não tem história”, frisa.

Ao Lado B, Bartolina reiterou assuntos aprendidos na escola, um deles, a miscigenação. Ela lembra que os professores não ensinavam a origem dos índios e negros, mas a origem portuguesa e depois a miscigenação. “A partir daí vinham os cafuzos, mamelucos e, toda aquela história, e não conseguíamos nos identificar”, frisa.


E o pardo? Criado pelo IBGE, a única explicação para a classificação “parda” é de separar negros de pele retinta de não-retintos, ou seja, designar variadas ascendências étnicas. A pele negra possui diversidade de subtons, sendo os três principais o mais claro, médio e escuro. Além disso, a melanina pode ter fundo avermelhado, rosado, azulado ou amarelado, este último o mais comum no Centro-Oeste.

“Quem traz o pardo é o IBGE, mas no movimento negro isso não existe. É branco, negro ou índio. Esse pardo vem no sentido daquelas pessoas de tez mais clara, mas que carregam toda a característica da negritude, ou seja um corpo negro, um nariz negro, um cabelo negro. O movimento negro acabou entrando em consenso para não haver um conflito com o IBGE, mas dentro do movimento, é negro”, explica.

Negro no topo – Da tentativa de apagar a ancestralidade guerreira do negro por séculos, a realidade é que o empoderamento desse povo incomoda até hoje. E quando o negro aprende que sua origem é africana e não de um povo escravizado, ele resgata sua identidade e autoestima.

“Nós só queremos direito a história e quando a gente aprende que nosso origem é africana e que esse povo africano veio, não de um povo escravizado, mas de um povo que foi arrancado de suas terras, que tinham história, que eram reis, rainhas, ou seja, tinha todo um contexto de raiz e de identificação é diferente. É neste momento que ele resgata sua identidade e entende que não é o que sempre disseram”, garante.

Contribuição negra – Bartolina ressalta que é importante entender que, mesmo no período da escravização, houve muita contribuição negra para o desenvolvimento do país. “Sem a força de trabalho do povo negro para o Brasil, não teria tantas riquezas construídas. Em Minas Gerais, por exemplo, que os negros passavam de 12 a 18 horas dentro das minas, se tratava de uma mão de obra altamente especializadas. Isso se repetia com as plantações de café e cana-de-açúcar, então saber que você é de origem africana significa reconhecer tudo isso e isso nunca foi dito”, pontua.


Ninguém quer se dizer negro se não sabe de tudo isso. Compreender o valor da negritude, em totalidade, originária de pessoas livres que, em determinado momento, foram utilizadas como escravas é um processo de busca.

O que restou após a abolição? Os portugueses vieram com promessa de capitanias, terras, certeza de que seus filhos teriam um lugar para ficar e áreas para plantar. O mesmo se repetiu com os italianos e japoneses que vieram com a certeza de emprego e refúgio.

“E aos índios e negros? O que restou? Quando se dá a abolição da escravatura, por exemplo, a lei veio com dois aditivos: a partir desta data está abolida a escravatura no Brasil e o artigo segundo revogam-se as disposições ao contrário. Então, não houve nenhuma política pública que assegurasse à população negra ao menos o direito ao teto e moradia. Neste período o número de negros era muito grande e para completar, sem abrigo. Eles não tinham casa, não tinham emprego, afinal ninguém queria contratar um ex-escravo e passaram a importar mão de obra europeia, neste período”, acrescenta.

Sobre mi, mi, mi? Se você é negro, busque conhecimento. Estude. Bartolina gosta de usar dados, antes de rebater qualquer ataque de um não-negro. Além disso, garante que a falta de representatividade em espaços ainda impacta de forma violenta.

“A escolaridade, por exemplo, aumentou, mas ainda existe uma diferença. No mercado de trabalho, os negros ganham menos, é raro encontrar chefia negra. Não é mi, mi, mi. Eu gosto de trabalhar com dados estatísticos, porque os números não mentem e mostram a realidade. Quando você chega a um bar, como o Blues, que eu amo, e não vê negros é difícil. Eu tenho mais de 50 anos e posso me sentir bem em qualquer lugar, mas uma jovem negra que não se vê nos espaços é complicado. Esses dias fui ao Blues e uma moça negra se aproximou, me deu um abraço e disse: graças a Deus você chegou! Ao redor só haviam brancos”, explica.

Há solução? Como militante, Bartolina garante que o primeiro passo é buscar conhecimento. “Esse desprestígio histórico, político e social foi construído historicamente. Os homens trabalharam para que isso acontecesse. Para descontruir tudo isso, o trabalho deve começar cedo, em casa, nas escolas, e, inclusive, em matérias jornalísticas”, finaliza.

Que tema dentro da negritude gostaria de ver aqui no Lado B? Mande para nós no e-mail ladob@news.com.br ou o WhatsApp (67) 9 9669-9563.

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