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POVO PRETO REFLEXÃO

População negra de Salvador se sente deslocada e pouco representada na política da própria cidade

Apesar de 80% dos moradores da capital baiana serem negros, a cidade nunca teve um prefeito negro eleito por voto popular.

24/08/2020 14h13
Por: REDAÇÃO Fonte: Yahoo Noticias
Foto: Prefeitura de Salvador
Foto: Prefeitura de Salvador

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Morar em Salvador, na Bahia, causa uma sensação de estranhamento entre a população negra ao que se refere à gestão da Prefeitura. “Nunca ter tido um gestor com a nossa cor, com a nossa raça é frustrante. É uma sensação de não-lugar, de não-pertencimento”, diz o educador social Renildo Barbosa, morador do bairro da Federação.

Na capital, 80% da população é autodeclarada negra. Em dez anos, entre 2007 e 2017, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de negros no estado da Bahia cresceu 8%, de 11,37 milhões para 12,28 milhões, o que já representava 10,6% de todos os 114,7 milhões de negros no país, em 2017.

De acordo com Barbosa, a falta de um prefeito ou uma prefeita negra na cidade mais negra do país também reflete a forma como os problemas sociais da cidade são vistos pelos políticos. “Quem vive nas comunidades, em contato diário com a população, é que deveria estar lá, neste ponto principal para reverberar tudo o que nós sentimos e fazer o enfrentamento das nossas dificuldades”, avalia o educador social.

Filha de um pescador e de uma vendedora de acarajé, a professora universitária Alexandra Amorim é uma típica moradora de Salvador e acredita que a configuração histórica do país, enraizada na colonização e no racismo, ainda sustentam à ausência de negros no comando da cidade.

“O fato de a cidade ainda não ter tido governantes pretos não se dá pela ausência de candidatos com formação e competência, mas por um processo historicamente construído e reforçado cotidianamente que afasta o negro de si, de sua história, de sua ancestralidade em ver e reconhecer um semelhante como capaz de tudo isso”, afirma Alexandra, moradora da região de Itapuã.

A professora faz parte do bloco Ylê Ayê, fundado em 1974, e cita um trecho da canção “Alienação”, lançada pelo bloco em 2005, para exemplificar os anseios da população negra. “A consciência é o objetivo principal,  eu quero muito mais além de esporte e carnaval,  natural. Chega de eleger aqueles que têm. Se o poder é muito bom, eu quero o poder também”, diz a letra composta por Mário Pam e Sandro Telles.

Perspectivas de mudança

Alexandra acredita que a tomada de consciência negra com o impulso do resultado positivo das ações afirmativas criou uma geração mais antenada para os problemas da falta  de representatividade na política local. 

“Se trata de algo em desconstrução ao longo dos tempos e como consequência teremos em breve essa representatividade competente para exercer uma função singular e governar para toda a população e não para os grupo minoritários de privilegiados”, analisa.

O cantor Lazzo Matumbi, autor da música “14 de maio”, que reflete sobre o legado pós-escravidão no Brasil, aponta que o racismo “sempre deu as cartas” em Salvador. “O domínio econômico, político e estrutural em Salvador está nas mãos dos brancos. De uma pequena elite branca há muitos e muitos anos. É uma cidade com 80% das pessoas negras, mas tem a contradição de ser, talvez, a cidade mais racista do Brasil”, salienta.

As contradições da cidade, apontadas pelo músico, podem ser observadas em números. Com uma população estimada de 2,8 milhões de habitantes, o Índice de Desenvolvimento Humano da cidade é 0,759 (o máximo é 1). A renda média dos trabalhadores com carteira assinada é de 3,5 salários mínimos (cerca de R$ 3.650 por mês). Por outro lado, a mortalidade infantil é de 14,5 bebês para cada 1 mil nascidos vivos e a taxa de desocupação no mercado de trabalho está próxima dos 20%.

‘A democracia só está no papel’

Na avaliação do escritor Hamilton Borges, o município não teve ainda uma real experiência de democracia, nem mesmo nas propostas dos partidos autodenominados de esquerda. “Esses brancos extraíram tudo o que puderam dessa cidade e fizeram tudo para manter os negros na posição de subalternos. A gente nunca teve um prefeito preto porque nunca teve um projeto político do ponto de vista dos pretos. O movimento negro mais radical, nos anos 70 e 80, chegou nas bases, nas comunidades, e alertou as pessoas para isso. Eu sou fruto desse alerta”, diz o escritor, que mora no Engenho Velho de Brotas.

O ‘Vovô do Ilê’, fundador do bloco afro-afirmativo Ilê Aiyê, também aponta falhas na estrutura política de Salvador. “Ela é muito arcaica, muito antiga. É um modelo que não serve mais e, realmente, nunca serviu. Uma política só voltada para os brancos. Na esquerda e na direita, os partidos são comandados por brancos e os negros são massa de manobra. A democracia é só papel. A palavra de um homem branco vale mais que a de dez homens negros. É um apartheid”, pondera.

Com 471 anos de história, Salvador foi a primeira capital do país. Em quase cinco séculos, a única vez que uma pessoa negra esteve à frente da gestão municipal não foi por escolha popular. Entre 1978 e 1979, por 10 meses, o Edivaldo Brito foi prefeito, nomeado pelo regime militar vigente na época.

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