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POVO PRETO CRESPAS

O problema não é o cacheado, é o crespo!

A luta é pelo respeito total à minha autenticidade e às demais coexistentes. Sigamos!

06/10/2020 20h09 Atualizada há 2 semanas
Por: REDAÇÃO Fonte: geledes.org | GLAUCIA LUCIANA DRUMOND BISPO
Foto: geledes.org
Foto: geledes.org

Meus cachos nunca foram uma questão para mim e para os outros.  O problema era a textura do meu cabelo, crespo. Na minha família, os cachos sempre foram valorizados, o crespo nem tanto. Era preciso “domar” o meu cabelo volumoso, seco e esponjado. Fora do contexto familiar, escutava: “cabelo de espiga de milho”; “cabelo de cutia”; “nossa, que moita!”; “prende esse cabelo”; “até que o seu cabelo não é ruim, mas… tem que dar um jeito.” O “jeito” dado pela minha mãe, que também concordava com os outros, mesmo inconscientemente, foi a química. “Afinal, não vou permitir que a minha filha passe pelo que já passei”, pensava minha mãe, usuária de henê (produto químico que alisa, colore, “hidrata” e a torna aceitável). 

Por volta dos seis anos de idade, iniciei a minha saga com o famoso permanente (produto químico que retira o volume dos cabelos e faz o cabelo cachear com o uso de bigudinhos): amenizava o volume, valorizava os cachos e tornava o meu cabelo “ok” para viver em sociedade. Doía para desembaraçar; o cheiro era muito enjoativo e, às vezes, provocava feridas na cabeça. Com isso, o crespo era disfarçado e os cachos – aspecto tolerável do meu cabelo – ressaltados.

Depois de um tempo, passei ao relaxante (produto químico que ameniza o volume dos cabelos, faz “abrir” os cachos e não utiliza o bigudinhos). Meu cabelo era “bonzinho”, não precisava de permanente. Ele precisava apenas ter o volume “controlado”. O relaxante era aplicado apenas na raiz do meu cabelo. A raiz era o problema, na verdade: “tá na hora de abaixar a raiz desse cabelo. Ele tá ficando cheio de novo.” O produto tinha um cheiro nauseante e doía demais para desembaraçar o meu cabelo. Se eu reclamasse era pior: “mulher, para ficar bonita, tem que sofrer”.

Escutei essa máxima por anos da minha vida (na realidade, escuto até hoje). Quando eu pedia para tirar o produto, porque ardia, eu tinha que esperar mais um pouco para fazer efeito. E por vinte anos, aproximadamente, utilizei químicas no meu cabelo, mesmo quando a decisão sobre o que fazer com ele já podia ser tomada por mim. Afinal, o meu cabelo não era bom o suficiente para ser livre da escravidão química. Eu aprendi a rejeitar o meu cabelo. 

Por volta dos vinte e seis anos, assumi meu cabelo natural, que eu não conhecia. Foram tantos anos usando química e acreditando na palavra dos outros, que quando fui confrontada com a possibilidade de conhecê-lo na sua forma natural, simplesmente neguei e fugi (de mim mesma) por bastante tempo. “Como ficar sem cuidar da raiz? Meu cabelo precisa de química!”, eu pensava assim. Entretanto, com o incentivo de algumas colegas de trabalho, que já haviam passado pela transição, e com o cansaço da escravidão voluntária ao uso da química, me permiti ao processo. 

Meu cabelo cresceu e convivi com duas texturas por quase um ano: uma natural e a outra com química. Decidi, depois de alguns meses, realizar o grande corte. E, finalmente, conheci mais de mim do que antes. Meu cabelo é fofo, seco, volumoso e os meus cachos se formam na raiz. Ele é crespo. Fiquei alguns minutos olhando para o meu cabelo natural: sem cremes, químicas e óleos. Curti, gostei do que vi e assumi para mim e aos outros minhas raízes verdadeiras, minha negritude. Pensei, que ao passar pelo processo de transição capilar, eu tivesse resolvido o “drama” das discussões externas e internas em torno do meu cabelo. Eu havia entendido que o meu crespo é bom e bonito; parei de realizar os processos químicos altamente dolorosos e enjoativos. Finalmente, me sentia livre e feliz com a minha autoimagem. Ledo engano!

Sai do salão e fui viver a vida. O primeiro grupo que me viu como sou – crespa – me rejeitou. Não entendi o porquê da rejeição, mas entendi que fui desprezada e pela mudança avistada. Ninguém me cumprimentou ou falou sobre o meu cabelo. Olhares foram desviados. As pessoas sentiram-se incomodadas com a minha nova aparência. Outras riam de nervoso. O que tanto incomodou aquelas pessoas? São três explicações que encontro: primeira, uma mulher crespa com os cabelos curtos, pode? Perdi minha feminilidade para algumas dessas pessoas.

Ouvi alguns comentários e percebi olhares que questionaram a minha orientação sexual. Segunda hipótese: evidenciar e aceitar a negritude que há em mim e que por vezes passa despercebida pela minha pele clara me torna menos aceitável e passível de críticas. A beleza aceita é uma só, qualquer aspecto estético que fuja do padrão não é aceito, tolerado, tampouco respeitado. A química que eu usava no meu crespo nos tornavam – meu cabelo e eu – mais toleráveis. Os cachos ressaltados pela química disfarçavam a textura rejeitada socialmente. A terceira hipótese apresenta-se com a seguinte pergunta: como se relacionar com quem aceita o rejeitável? Isso causa estranhamento e a primeira reação é de repulsa. Para aquelas pessoas, minha presença tornou-se incômoda, porque aceitei e demonstrei amar o que é rejeitado pela maioria. 

Meu cabelo floresceu. Hoje, ele está do jeito que por anos foi impedido de ser: crespo, muito volumoso, seco e com cachos. Todas essas características dão o charme que é próprio dele e sua singularidade em meio a tantos outros tipos de cabelo. O olhar sobre o meu cabelo crespo, atualmente, é de admiração e uma espécie de “gostaria, mas não consigo” aceitar meu cabelo natural ou de aprová-lo, se é que é preciso alguma espécie de aprovação para ser o que sou/somos, crespa(s) e cacheada(s). Afinal, estamos falando de uma beleza natural negada, não é? Tudo bem. É processo! Muitas das vezes doloroso e estranho. 

A minha “nova” estética pode e deve ser fonte de incômodo e inspiração para muita gente, seja aos que desejam dar mais um passo em direção ao autoconhecimento, seja àqueles que se questionam sobre os seus desconfortos diante do diverso. E é preciso afirmar: a transição capilar não é moda, tampouco somente uma questão de autoamor. A transição é uma revolução política interna e externa. Afirmar e valorizar o que sempre foi negado desde sempre é o sentido da transformação e do resgate às raízes. 

Olhar-se no espelho e se achar bela/bonita não implica necessariamente em uma aceitação pautada pelo autoamor. Se não percebemos que devemos entender a beleza e amá-la porque houve movimentações políticas que induziram o pensamento contrário a isso, não avançaremos no processo de empoderamento (BERTH, 2019, p. 138).

Em suma, não é o fim da linha quando deliberamos – depois de um longo processo (doloroso) – assumir nosso crespo. É só o começo de muita (re)existência e perseverança, pois as críticas serão “eternas” e a aceitação, parcial. O mundo ainda continua cultuando a beleza branca e desvalorizando a negra, por isso os cachos não são um problema. A questão é o crespo. O problema é a evidenciação da negritude. A violência que se apresenta é minuciosa, quase imperceptível; muitas vezes, não entendemos. A compreensão e o trabalho são lentos, processuais. 

A luta é pelo respeito total à minha autenticidade e às demais coexistentes. Sigamos!

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